Renováveis podem sofrer com falta de matérias-primas

Relatório afirma que a escassez de alguns materiais usados na fabricação de infraestrutura de fontes alternativas pode prejudicar o setor, mas indica que economia, reciclagem e substituição são a solução
Há alguns materiais que são utilizados largamente pela indústria de energias renováveis para a fabricação de sua infraestrutura, mas que também dividem sua função servindo de matéria-prima para celulares, TVs de tela plana, computadores e baterias. E segundo um novo estudo do WWF e da Ecofys, a extensa utilização desses materiais pode levar à sua escassez, tornando mais difícil a produção de equipamentos para o setor renovável.

O relatório Critical Materials for the transition to a 100% sustainable energy future (algo como Materiais Essenciais para a transição para um futuro com energia 100% sustentável) afirma que a crescente demanda das chamadas terras-raras – grupo de 17 elementos químicos utilizados sobretudo em equipamentos eletrônicos – pode fazer surgirem lacunas no suprimento desses materiais.

Por isso, o documento ressalta a importância da economia, reciclagem e substituição dessas matérias-primas, alegando que, assim, será possível abastecer o mundo com energias renováveis, superando os obstáculos das mudanças climáticas e possibilitando um futuro sem combustíveis fósseis e em que o aquecimento global possa ser limitado em 1,5ºC.

“A conservação de energia e eficiência energética, assim como uma melhoria substantiva na reciclagem e reuso de materiais chave, são as condições básicas exigidas para garantir que o mundo tenha uma oferta abundante desses minerais”, observou Samantha Smith, líder da Iniciativa Global de Clima e Energia do WWF.

O texto cita que os materiais que correm maior risco de escassez são o lítio e o cobalto, que são usados para baterias de veículos elétricos, mas afirma que essa falha na oferta pode ser aliviada com a reciclagem do lítio, a substituição dele em outros setores e a redução no uso de cátodos intensos em cobalto.

Já outros materiais, como o índio, o gálio e o telúrio, usados na indústria solar fotovoltaica, não devem sofrer tanto com a escassez, já que podem ser substituídos por tecnologias que utilizam matérias-primas mais abundantes, como o silício.

O cobre também é um material que deve sofrer com a escassez, uma vez que é usado para redes de distribuição de eletricidade, transformadores e motores, e cada vez mais para aparelhos com alta eficiência. Mas reciclá-lo a partir de infraestruturas antigas e explorar as possibilidades de sua substituição– pelo plástico, no caso das telecomunicações, e pelo alumínio, em infraestrutura elétrica – pode evitar a falta do material no mercado.

Outro problema apontado é que o desafio não é apenas da escassez dos materiais, mas também da localização destes no mundo. A China, por exemplo, detém 90% das reservas globais de terras-raras, e suas decisões de mercado podem afetar toda a disponibilidade mundial dessas matérias-primas. Por isso, eliminar as restrições geopolíticas pode ser difícil, mas é possível e necessário. O documento também enfatiza a necessidade de se encontrar novas fontes desses materiais.

Kornelis Blok, diretor de ciência da Ecofys e responsável pela pesquisa para o relatório, acredita que lacunas na oferta dessas matérias-primas provavelmente ocorrerão, mas que, com as tecnologias certas, isso pode ser evitado na maior parte das vezes.

“O relatório oferece um guia importante para fornecedores de tecnologia e sistemas. Isso pode ajudá-los a fazer as escolhas certas para tornarem seus produtos à prova [das dificuldades] do futuro”, comentou ele.

O documento também sugere que os governos criem fortes incentivos e regulamentações para melhorar a reciclagem e o reuso desses materiais.

“Uma nova legislação política é necessária em todas as principais economias para promover a reciclagem de materiais e levar a um desenvolvimento tecnológico substancial para garantir que os materiais essenciais exigidos para fazer as tecnologias de energias renováveis continuem disponíveis”, declarou Stephan Singer, diretor de Políticas Energéticas Globais do WWF.

“Em paralelo, pesquisa e desenvolvimento devem ser promovidos para novos materiais e para melhorar a sua eficiência”, concluiu ele.

Publicado originalmente no site CarbonoBrasil

(Jéssica Lipinski  –  Instituto CarbonoBrasil)

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