22 de setembro de 2017

Rio São Francisco: 2,8 mil quilômetros de esperança, tradição, cultura e histórias

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“Riacho do Navio corre pro Pajeú, o rio Pajeú vai despejar no São Francisco, o rio São Francisco vai bater no ‘mei’ do mar, o rio São Francisco vai bater no ‘mei’ do mar…”. Os versos da canção de Luiz Gonzaga são conhecidos e relatam um dos meandros percorridos pelo “rio da integração nacional”, cuja descoberta é atribuída ao navegador genovês Américo Vespúcio. O São Francisco segue resistente, levando vida a todos aqueles que se recostam às suas margens.

O berço do São Francisco fica na Serra da Canastra, no município de São Roque de Minas (MG). Da nascente, ele percorre cerca de 2.800 quilômetros até desaguar no Oceano Atlântico, passando por cinco estados; além de Minas Gerais, o rio banha as terras de Alagoas, Bahia, Pernambuco e Sergipe. Todo o vale sanfranciscano ocupa uma área aproximada de 620 mil quilômetros quadrados, incluindo 505 municípios, com uma população de cerca de 18,2 milhões de pessoas.

Com a sabedoria de quem muito já se aventurou nessas águas, o pescador Erenilton de Souza, o Leleco, não tem outro sentimento a demonstrar que não seja gratidão. “Ave Maria, pra mim, é tudo na vida! Porque água é vida e salva a gente!”. Com 53 anos, dos quais mais de 40 foram dedicados à pesca, o cidadão da “princesa” Juazeiro, na Bahia, é daqueles que levam a sério as tradições regionais – inclusive a crença em figuras lendárias como o Nego D’Água, caboclo virador de canoas e assustador de peixes. “Eu dizia que não acreditava e ficava zombando dele. Um dia, no ano de 1982, ele me botou pra correr. Fiquei assustado. Tem muitas histórias na região. Tinha pescador que até conversava com ele”, conta.

As lendas são uma das principais heranças culturais do rio. São personagens que, de tão peculiares, dão asas à imaginação daqueles que ouvem os relatos. Há quem garanta que não se trata apenas de história de pescador… Quem mora na região, provavelmente, já escutou falar da Mãe D’água, mulher de cabelos longos e verdes, com cauda de peixe, sempre vista em cima das pedras das cachoeiras. Sua voz melodiosa, assim dizem, costuma encantar pescadores, que, em troca, lhe oferecem presentes.

Outra lenda conhecida é a da Serpente D’Água, que, segundo os mais antigos, está presa a três fios de cabelo de Nossa Senhora das Grotas; no dia em que ela se libertar, vai inundar as cidades-irmãs Petrolina e Juazeiro. “As lendas, ainda hoje, estão vivas no imaginário do povo ribeirinho. Enquanto eu tiver vida, eu continuarei divulgando essa riqueza cultural”, garante a historiadora juazeirense Maria Izabel Muniz Figueiredo. Bebela, como é conhecida, é autora, entre outros, do livro “Lendas e mitos do rio São Francisco”. Nas salas de aula da região, as histórias são propagadas para as novas gerações, uma forma de preservar esse patrimônio.

As carrancas também compõem o leque de manifestações culturais do Velho Chico. Antigamente, elas eram colocadas na proa das barcas para dar sorte e afugentar os maus espíritos, o que ocorreu até meados da década de 1950. Hoje, as peças são fabricadas e comercializadas em mercados locais de artesanato. É o caso do Centro de Artes Ana das Carrancas, em Petrolina (PE), que faz alusão à memória da “dama do barro”, uma das artesãs de carrancas mais conhecidas no Brasil e no mundo, falecida em 2008. Segundo Maria da Cruz Santos, filha de Ana das Carrancas, o centro também promove capacitações. “Sempre que tem oportunidade, a gente busca repassar esse conhecimento. Ana colocava muito amor naquilo que fazia, e eu penso que essa arte precisa ser difundida”, explica.

“Seu” Toinho Pescador, natural de Penedo (AL), tem a história de sua vida bastante ligada ao rio São Francisco. Aos 81 anos, ele se emociona ao falar daquele que considera um “pai”: “Posso dizer que criei meus filhos pescando. Nós não tínhamos ajuda. Quem me deu todo o sustento foi o rio. Quem foi o verdadeiro pai foi o São Francisco”.

Ao longo de décadas, o pescador acompanhou de perto a trajetória do Velho Chico e lamenta as “torturas” sofridas pelo rio, resultantes de ações como o desmatamento das margens, a poluição e a pesca predatória. “Tenho criado poesia, música e participado de diversos eventos, sempre com essa esperança de que a gente vai melhorar um pouco. Vamos lutar pela revitalização, o rio merece”, reforça.

(Codevasf)

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