Artigo: A Olimpíada é para o que nasce

Quartas de final do handebol masculino entre Brasil e França. Foto: FotosPúblicas / Inovafoto
Quartas de final do handebol masculino entre Brasil e França. Foto: FotosPúblicas / Inovafoto

Em artigo de opinião, a coordenadora do Relatório de Desenvolvimento Humano Nacional do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) no Brasil, Andrea Bolzon, pede conscientização, políticas públicas e iniciativas do terceiro setor e do setor privado para garantir que, após as Olimpíadas, o esporte faça parte realmente da vida dos brasileiros

O país em estado de agitação. O megaevento esportivo, sonhado há tanto, em pleno acontecimento. Após tanto esforço, empenho, planejamento, sofrimento, o Brasil se apresenta com o que tem de melhor. Oferece o melhor possível para que os jogos se deem, para que a tradição se cumpra.

O momento não é dos melhores. A recessão morde os calcanhares das pessoas, a crise política em suspenso, a instabilidade social evidente. As duras críticas ao que foi mal feito, ao que continua sujo, à insegurança. Dúvidas e árduas discussões sobre o legado dos jogos ainda marcam as conversas do cotidiano.

Ainda assim, no coração de boa parte das pessoas, persiste uma vontade de que tudo dê certo. De que tudo valha a pena. De que a Olimpíada seja boa enquanto dure, e que deixe algo de bom para cada um que aqui vive. Mas, em essência, o que é uma Olimpíada boa? E mais além, a Olimpíada, em si, é boa para quê?

Pois bem, um boa Olimpíada é aquela que abre caminho para que o “espírito olímpico” varra não só a sua cidade sede, mas o país que a abriga e todo o planeta ao redor. Para além do bom funcionamento das estruturas, do quadro de medalhas de cada país, todas as guerras deveriam ficar em suspenso nesses dias, como antigamente. As animosidades deveriam ser deixadas de lado, as intolerâncias atenuadas.

Durante as Olimpíadas poderíamos ou deveríamos todos experimentar um patamar civilizatório superior, pautado pelo respeito mútuo e pela solidariedade. Uma experiência que, se vivida amplamente, poderia deixar um registro vivo de que outro mundo é possível.

Em sintonia com esse devir, e colocando os dois pés no chão, no real, no momento difícil vivido aqui e ali, a Olimpíada é boa para que os atletas mostrem o trabalho de qualidade e excelência que fizeram, e para inspirar as pessoas na construção de um vínculo profundo e de qualidade com as atividades físicas e esportivas. E ponto.

A questão é que assistir à performance dos jovens atletas ao vivo ou na TV não resulta automaticamente em viver o esporte como uma dimensão de enriquecimento da vida. Nenhuma Olimpíada até hoje causou um maior nível de envolvimento da população de sua sede ou país com atividades físicas.

O desafio é, então, de cada um e do coletivo. A centelha dos jogos pode acordar algum desejo profundo, ou atiçar uma intuição de que a vida seria melhor com mais movimento. Mas abrir espaço para essas práticas na vida cotidiana é tarefa que se presta a muito investimento.

Que esse espaço possa então ser aberto nas mentalidades, nas políticas públicas, nas iniciativas do terceiro setor e do setor privado. Que as condições adversas à pratica do esporte entre as pessoas em situação de vulnerabilidade não prevaleçam. E que as Olimpíadas cumpram, então, seu papel histórico de colaborar com um mundo melhor.

Por Andrea Bolzon, coordenadora do Relatório de Desenvolvimento Humano Nacional do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) no Brasil

(ONU Brasil)

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