16 de setembro de 2017

Com enredo crítico sobre o Xingu, Imperatriz Leopoldinense leva debate ambiental à Sapucaí

Com enredo crítico sobre o Xingu, Imperatriz Leopoldinense leva debate ambiental à Sapucaí

Especialistas veem nas críticas do enredo da escola a oportunidade de ampliar a discussão sobre problemas do meio ambiente

A agremiação carioca Imperatriz Leopoldinense traz para a Marquês de Sapucaí este ano o enredo “Xingu, o clamor que vem da floresta”, em que defende os índios e acusa produtores rurais pelas mazelas da região. A escola, que vai cantar: “Sangra o coração do meu Brasil, o belo monstro rouba as terras dos seus filhos, devora as matas e seca os rios”, apresenta as alas “o uso indevido dos agrotóxicos” (inicialmente chamada de “os fazendeiros e seus agrotóxicos”, mas renomeada após contestação do setor produtivo rural), “pragas e doenças”, “a chegada dos invasores” e “olhos da cobiça”.

Polêmico, o enredo da escola traz à tona o debate sobre a proteção de áreas naturais essenciais para garantir a manutenção dos serviços ambientais, fundamentais para a manutenção da agricultura. A discussão é positiva, uma vez que auxilia a comunidade a compreender que áreas naturais protegidas, públicas ou privadas, contribuem para o fornecimento de água, solos férteis e polinizadores.

O agronegócio, um dos poucos setores que continua crescendo no Brasil em meio à crise econômica, é responsável por quase um terço dos postos de trabalho do País, segundo levantamento mais recente da Confederação Nacional da Agricultura, com base em dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad) de 2014. No entanto, especialistas defendem que seu crescimento deve acontecer de forma aliada com a conservação da natureza.

Escola mudou o nome da ala para “O uso indevido dos agrotóxicos” após protestos do setor produtivo rural

Menos agrotóxicos e mais orgânicos

A utilização demasiada de agrotóxicos é um dos temas do enredo que precisa ser discutido pela nossa sociedade. O Brasil é o líder mundial do consumo dessas substâncias, com uma média de 5,2 kg por habitante, de acordo com o Instituto Nacional do Câncer. Comparativamente, os EUA, a média por habitante é cerca de 1,8 kg, afirma a organização.

A redução do consumo desses produtos nas propriedades rurais é um desafio e a conta dessa utilização desenfreada já está chegando. A população de abelhas e outros insetos polinizadores, por exemplo, têm sofrido baixas significativas, segundo pesquisadores da Universidade Federal de Lavras (UFLA), da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), da Universidad Nacional Autónoma de México e do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade – ICMBio. O impacto dessa perda pode variar entre R$ 16,6 bi e R$49 bi, isso porque 68% da agricultura do Brasil é atrelada à polinização.  

Carlos Hugo Rocha, doutor em Manejo de Recursos Naturais pela Universidade do Estado do Colorado (EUA) e membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza, acredita que a solução está em sistemas de produção que valorizem a conservação de áreas naturais, dos solos e da água.  Ele explica que a produção orgânica aliada a sistemas agroflorestais, abrangem um sistema produtivo ambientalmente correto com uso racional dos recursos naturais e, portanto, sustentável. Os alimentos são produzidos da maneira mais natural possível e, por não contemplar o uso de insumos químicos, fertilizantes e pesticidas, evitam a contaminação do solo e dos recursos hídricos; além de serem mais benéficos à saúde. E, ao diminuir custos e agregar valor aos produtos dos agricultores, estimula-se o desenvolvimento econômico.

“Dessa forma, o produtor também estará contribuindo na produção de serviços ecossistemas essenciais”, conta Rocha, ressaltando que essa estratégia contribui para o equilíbrio no solo e na natureza, o que favorece a própria produção. “A matéria orgânica do solo estimula a resistência das plantas e o equilíbrio promove o controle natural de pragas; assim a própria natureza combate os organismos, sem necessidade de agrotóxicos”, explica o doutor.  

Desmatamento e mudanças climáticas

O Brasil é líder mundial em desmatamento de florestas tropicais. Os dados do Sistema de Estimativa de Emissões de Gases de Efeito Estufa, do Observatório do Clima, mostram que em 2015, dos cinco setores do inventário de emissões de gases de efeito estufa, o setor de “mudança de uso da terra e florestas” foi o maior responsável pelas emissões brasileiras, seguido respectivamente pela energia, agropecuária, processos industriais e resíduos. A Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) lançou o relatório Estado das Florestas do Mundo 2016 e concluiu que no Brasil, mais de 80% do desmatamento está ligado à conversão de terras em terrenos de pasto. Apesar de elevada, a taxa de desmatamento reduziu em quase 50% na América Latina nos últimos 26 anos. Ainda assim, entre 2000 e 2010, foi registrado um desmatamento de sete milhões de hectares de florestas nos países tropicais e aumento das terras agrícolas de seis milhões de hectares ao ano.

Segundo Carlos Nobre, membro da Academia Brasileira de Ciências e da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza e membro da Academia Brasileira de Ciências, da Academia de Ciências dos EUA, e da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza, o setor de agronegócio precisa fazer muito ainda para que o Brasil alcance as metas ambientais estabelecidas no Acordo do Clima de Paris, compromisso internacional para a redução de gases de efeito estufa na atmosfera. “Recuperação de pastagens degradadas, utilização de técnicas de manejo de pastagem para que o solo aumente a absorção de matéria orgânica e carbono e a integração de lavoura, e pecuária e floresta são algumas técnicas de baixo carbono amigáveis que precisam fazer ainda mais parte do cenário brasileiro”, diz.

Para o gerente de Estratégias de Conservação da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza, coordenador geral do Observatório do Clima (OC) e membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza, André Ferretti, o Brasil deveria estimular ainda mais o debate sobre a conservação da natureza. “O Plano Safra (Plano Agrícola e Pecuário 2016/2017), que disponibiliza R$ 185 bilhões para financiar a produção agropecuária nacional, destina apenas 1,6% dos recursos para propriedades que praticam a agricultura de baixo carbono (ABC)”, analisa. Segundo ele, a parcela poderia ser de até 50% dos recursos para incentivar as práticas sustentáveis que beneficiam tanto o produtor como o meio ambiente.

Segundo ele, a parcela deveria ser muito maior, e o Plano Safra poderia ir além, sendo dedicado 100% à agricultura de baixo carbono. “A modalidade é mais sustentável e pode dar mais um diferencial competitivo para a agropecuária brasileira”, afirma Ferretti.

Trabalhando em conjunto 

É importante admitir que o controle na utilização de agrotóxicos, bem como o monitoramento de atividades florestais ligadas ao desmatamento e, ainda, a manutenção de áreas de vegetação nativa precisam ser iniciativas realizadas em parceria pela sociedade, governo e também pelos produtores rurais. Algumas dessas frentes, no entanto, acabam sendo mais efetivas quando há envolvimento do Estado. 

Segundo Nobre, o controle e o monitoramento das atividades florestais, e a criação de políticas públicas são fatores decisivos para diminuir o desmatamento no Brasil, complementa. “O país tem feito um bom trabalho com a rastreabilidade da madeira, por exemplo. Hoje, muitos governos estaduais exigem somente madeira certificada por meio do Manejo Florestal Sustentável (MFS), que garante não ser decorrente de desmatamento ilegal”, conta.

O incentivo a cadeias produtivas sustentáveis, que beneficiem produtores, comercializadores e consumidores também é uma alternativa. Por exemplo, o programa Araucária+, desenvolvido pela Fundação Grupo Boticário e pela Fundação CERTI, promove a conservação da Floresta com Araucárias por meio da inclusão socioeconômica de proprietários de áreas no Planalto Serrano de Santa Catarina e região em cadeias produtivas inovadoras, tendo como base espécies nativas desse ecossistema, como a erva-mate (Ilex paraguariensis) e o pinhão – que é a semente da araucária ou pinheiro-do-paraná (Araucaria angustifolia). Os produtores integrados ao Araucária+ passam a adotar um padrão sustentável de produção dessas matérias-primas e depois são conectados a um mercado diferenciado, que comercializa os produtos com valor agregado. 

Desfile

A Imperatriz Leopoldinense é a terceira escola do Grupo Especial a desfilar no domingo (26), no Sambódromo da Marquês de Sapucaí.

(a partir de informações da Central Press)

 

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