19 de dezembro de 2018

Fórum Mundial da Água começa hoje em Brasília

Estrutura montada para o Fórum Mundial da Água (Marcelo Camargo/Agência Brasil)

O 8º Fórum  Mundial da Água começa neste domingo (18), em Brasília, e deve reunir cerca de 45 mil pessoas interessadas no tema da água. Desse total, 10 mil são especialistas vindos de mais de 100 países que estarão debatendo diferentes teses sobre a questão da água, em vários painéis ao longo da semana. O fórum é o maior evento relacionado ao tema e tem a chancela do Conselho Mundial da Água (CMA), organismo internacional responsável pelo acompanhamento da questão em todo o mundo há mais de 30 anos. Esta é a primeira vez que o fórum ocorre em um país do Hemisfério Sul, desde sua estreia em 1997, na cidade de Marrakesh, no Marrocos.

Atualmente, o presidente do CMA é o brasileiro Benedito Braga, professor titular de engenharia civil e ambiental na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP) e também secretário de Saneamento e Recursos Hídricos do estado de São Paulo. Para ele, o grande objetivo do fórum é “aproximar a comunidade científica e técnica da comunidade tomadora de decisão”, ou seja, a classe política. Por essa razão, os governos de diferentes países foram convidados e estarão representados por chefes de Estado e ministros. Segundo Braga, é preciso “motivar os governantes para a importância da água para destinar recursos para as obras hídricas necessárias”.

Crise hídrica

Quando foi escolhida para sediar o Fórum Mundial da Água, Brasília ainda vivia tempos de abundância em suas torneiras, situação que mudou drasticamente a partir da crise hídrica provocada pela escassez de chuvas no verão de 2016/2017. Para evitar um colapso no abastecimento da cidade, medidas de restrição tiveram que ser tomadas e hoje, mesmo com a recuperação parcial dos reservatórios do Distrito Federal, a cidade ainda enfrenta racionamentos. Para o biólogo Paulo Salles, diretor-presidente da Agência Reguladora de Águas, Energia e Saneamento do Distrito Federal (Adasa), receber o evento neste contexto está longe de ser constrangedor.

“Na verdade, isso é muito bom porque nós estamos num momento muito significativo, um momento de muito aprendizado que significa duas coisas: primeiro, compreender que estamos vivendo um período difícil para o planeta inteiro. E, segundo, que estamos aprendendo com a crise hídrica”.

O professor, que tem doutorado em Ecologia pela University of Edimburgo, na Escócia, lembra que “a água é parte da economia, é parte da política, da organização das instituições, e nós não percebíamos isso porque ela não faltava”. Salles faz questão de frisar que crises hídricas vêm ocorrendo em várias partes do mundo atualmente. Por isso, o fórum é um momento  para favorecer as trocas de experiências, compartilhar projetos, ideias e soluções para permitir o enfrentamento de dificuldades do futuro.

Na Vila Cidadã, graças à realidade virtual, visitantes podem simular um voo de asa delta sobre uma floresta e uma usina hidrelétrica
Foto: Jorge Cardoso/8º FMA

Vila Cidadã

O evento também quer mobilizar o cidadão comum, ou “todo mundo que bebe água”, como diz Lupércio Ziroldo, um dos governadores brasileiros do Conselho Mundial da Água e presidente da Rede Brasil de Organismos de Bacias Hidrográficas.

Para isso, o fórum decidiu abrir espaço para a população participar. Foi assim que nasceu, durante a sexta edição do Fórum, em 2012, em Marselha, na França, a ideia do Fórum Cidadão, que seria a ponte dos especialistas e governantes com a comunidade dos que “bebem água”. A ideia é educar as pessoas de modo a evitar que se chegue ao ponto de precisar entender de água somente quando ela falta. Quando assumiu a coordenação do Fórum Cidadão, no âmbito do 8º FMA, Ziroldo e sua equipe pensaram em criar um espaço físico que fosse como um ponto de encontro. Surgiu assim a Vila Cidadã, com acesso gratuito de visitantes.

“Então o Fórum Mundial da Água, que sempre foi um grande encontro de ideias e soluções, mas dentro da área técnica, introduziu esse processo para induzir o cidadão comum a participar do debate, dar sua opinião, ouvir outras opiniões e, desse modo, se capacitar, aprender com o processo”, explica Lupércio Ziroldo.

Erguida em um espaço de 10 mil m², a Vila Cidadã vai oferecer atrações para todos os tipos de público. Graças à realidade virtual, crianças vão poder descer ao fundo do mar num submarino ou voar sobre a floresta e os rios numa asa delta. E todos poderão conhecer por dentro a Estação Antártica Comandante Ferraz e andar na neve do Polo Sul.

Para os adultos, a Arena das Águas, com capacidade para 300 pessoas, será o palco de conferências, apresentações e talk shows com convidados nacionais e internacionais. Será como um ponto de encontro para os visitantes dos vários países.

Haverá ainda o Cinema Cidadão, com a exibição de filmes que têm como tema a água, e o Mercado de Soluções, com a apresentação de 60 experiências individuais ou comunitárias de diversas partes do mundo, todas relacionadas a boas práticas e gestão no uso da água.

“Quando você recebe uma série de informações sobre a água, você passa a lidar com a água dentro de casa de outro modo. E a comunidade também passa a lidar melhor com a água”

Compartilhando a água

O Brasil foi escolhido para sediar o evento não por acaso. Segundo Ricardo Andrade, que é diretor de Gestão da Agência Nacional de Águas (ANA) e um dos 50 profissionais responsáveis pela organização do fórum, sua realização no Brasil se tornou “quase que uma obrigação”.

“As diversas instituições brasileiras ligadas à água se reuniram e entenderam que estava na hora de realizar o fórum na América do Sul. E isso se justificava com o argumento de que o Brasil tinha o que mostrar: a maior oferta hídrica individual do mundo”, diz ele.

“Não se consegue oferecer água de boa qualidade no tempo certo e no lugar correto se não tiver financiamento, se não tiver uma boa governança”. Na opinião dele, não adianta oferecer água se não tratar o esgoto, porque o manancial perde a qualidade. Mas Andrade é otimista e diz que os investimentos do governo avançaram e a conscientização da população também.

Ele avalia que a crise hídrica aumentou o interesse pelo tema. “É possível que o fato de se correr o risco de não ter água em casa, leve as pessoas a refletir sobre a água disponível, a necessidade de economizá-la, de usar essa água racionalmente, de protegê-la de certa forma, de cobrar dos governantes, e não apenas dos governantes, mas do cidadão, seu próprio vizinho”.

Vendendo ideias e soluções

Um dos pontos altos do 8º Fórum Mundial da Água é a Expo, com 18 pavilhões de países que, segundo o diretor de Operações, Rodrigo Cordeiro, atendeu todas as expectativas: “A vinda desses países se consolida através da vinda de um grupo de empresas de cada um desses países e essas empresas procuram oportunidades no mercado brasileiro, assim como identificar soluções no mercado brasileiro que possam levar para os seus países”.

A área da Expo é destinada exclusivamente aos 10 mil participantes inscritos no fórum. É la que eles vão encontrar o que grandes corporações multinacionais estão desenvolvendo para tornar correto e sustentável o uso da água.

Para os mais de 30 mil visitantes esperados na Vila Cidadã foi criada uma feira, onde estarão instituições interessadas em apresentar seus produtos, serviços e soluções relacionadas ao uso sustentável da água para empresas, consumidores, governos, sociedade e universidade.

O 8º Fórum Mundial da Água vai até o dia 23, no Centro de Convenções Ulysses Guimarães. Já a Vila Cidadã, a feira e a Expo foram abertas ao público no sábado (17) e vão funcionar até o dia 23, diariamente das 9h às 21h.

(com informações da Agência Brasil)

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